quinta-feira, 22 de julho de 2010

REENCONTRO

Quando te reencontrei
Eu me esqueci
Que o tempo passou
Que a fila andou
Que amanheceu
Que o espelho quebrou.
Eu me esqueci
Que havia te esquecido
E me tornei refém
Das tuas lembranças
De tempos idos.

RETROSPECTO

E arde o peito
Chaga aberta para o tempo
Uma flecha solitária
A solidão atirada em riste
A esquiva do choro
Indispensável alimento
A procura do choro
Suplemento alimentar
As páginas escritas
Amareladas de três décadas
Continuam escritas
E legíveis
Uma placa indicativa
Alertando para a vida
Que passa e segue
Sem parada para descanso.

DESCONEXÃO

Pedaço de mim plantado em solo fértil
Semente germinante e pulsante
Partida brusca antes do amanhecer
Um vazio imenso, parece sem fim
Cicatrizes ocultas tentam se mostrar.
Meus planos de crescer com ele
Foram atirados ao vento.
Ah como eu queria crer numa força invisível
Que para nós seleciona o melhor caminho!
Essa dor da perda corrói como um ácido!...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A ESTRADA

No colorido da simplicidade
Bailam o lúdico e a seriedade
Por um caminho além da vista
Linha sinuosa da própria escrita
A vida insiste, chora, sorri e brota
Como a hera nas frestas da rocha
Mas, é o próprio punho que delineia
A trilha que à nossa frente serpenteia
A estrada que vemos e que nos leva
Só será estrada se passarmos por ela
A trilha, em si, é apenas tatuagem
Tão-somente um traço e terraplanagem
Sem a estrada carecemos de um rumo
E seremos seres fugazes e sem prumo
Eis que olhamos para trás indiferentes
E lavamos nossas mãos impenitentes
Então, teremos o Bem e o Mal expiados
Pelos nossos caminhos mal desenhados.

O CEMITÉRIO DOS MEUS AMORES PASSADOS

O cemitério dos meus amores passados
Está mal cuidado
E maltratado pelas intempéries
Carece de visitas.
Os túmulos carcomidos guardam dores
Alguns ainda têm murchas e descoloridas flores
E seus característicos odores
Há lápides vetustas que parecem de ontem
Há outras recentes que parecem de séculos.
Além do cemitério dos meus amores passados
Existe um horizonte para onde minha fronte aponta
Um lugar longínquo para onde me leva este trem
Desprovido de marcha à ré.
Pela janela do trem a paisagem passa
Vejo amores vivos presentes e futuros
Amores mortos ou mortos-vivos no passado
Não quero amores que não mais se levantam
E o cemitério dos meus amores passados
Vai ficando para trás, distante e mal cuidado
Carente de visitas.
Não quero visitá-lo
Ainda que me julguem insensível e egoísta
Apenas o olharei de relance
Vez ou outra pela janela do trem.

SERVIDÃO

no curral um susto
um relógio de ponto
um dia e uma noite

no pasto um salto
a força das horas
a forca não demora

domingo é para esquecer
que o sábado passou
e que a segunda é fera...

INTEGRAÇÃO

Nossos corpos se fundem em apenas um
Nossas mentes se diluem na mente universal
Depois, há um semidesfalecer mútuo
A fala muda dos toques fortuitos
A redoma que nos abriga do tempo
Um mundo inteiro indescritível, imenso
Júbilo, regozijo imprescritível, intenso
No epicentro: dois corpos amantes
E um único espírito vivaz, unificado e latejante.